Mitos evangélicos sobre o Espírito Santo
por José Rosivaldo
Mitos evangélicos sobre o Espírito Santo
Uma vez mui acertadamente ouvi um irmão dizer que a fé e as convicções de muitos crentes têm sido firmadas no vento, naquilo que não tem base. Em sua primeira carta aos Coríntios, Paulo fala sobre a necessidade daqueles irmãos não se tornarem meninos no juízo, na mente. São muito comuns crentes meninos hoje em dia. Um crente menino nunca discerne nada corretamente. Ele muito comumente confunde avivamento com barulho, autoridade com gritos, poder com “exagerismos”, mito com verdade e esquisitice com revelação.
Este capítulo tem como objetivo trazer luz para questões muito mal compreendidas pelos crentes. Acredito que uma das principais áreas que os crentes têm mais dúvidas é a que refere ao batismo com o Espírito Santo. Por isso elegemos uma lista de mitos difundidos por muitas denominações. Uma vez que nossa reflexão é sustentada pelo tema “sinais AUTÊNTICOS de uma vida cheia do Espírito”, faz-se necessário falar sobre os sinais supostamente vindos do Espírito, mas que são vazios de autenticidade. Queremos com base na Escritura Sagrada trazer esclarecimentos sustentáveis para elas.
1º Mito: Apagar o Espírito em I Ts. 5.19 significa impedir as ações emotivas e desordeiras dentro dos cultos cristãos.
Esclarecimento: Compreendemos que o Espírito Santo é Deus e assim sendo ninguém pode impedir seu agir ou apagar seu poder. Portanto no texto referido, apagar o Espírito não pode ser o mesmo que conter uma pessoa que ameaça a integridade física sua e dos demais. Apagar o Espírito não é repreender uma pessoa que por sua emotividade atrapalha o culto. Mas o texto em apreço tem o mesmo valor que em Atos 7.51. Ou seja, apagar o Espírito é rejeitar sua ação salvadora e orientadora no meio do povo de Deus. Não apagamos o Espírito quando controlamos uma manifestação emotiva, mas quando negligenciamos o agir santificador de Deus em nossas vidas.
Apagar o Espírito é não se deixar ser controlado pela obra do Espírito, obra evidenciada pela santificação, pela disposição do crente em ser um instrumento de Deus para edificar outros ou para ajudar outros em suas dificuldades ou dúvidas. Apagar o Espírito é fazer do seu talento um instrumento de exibicionismo e deixar a glória de Deus à parte. Apagar o Espírito é usar os dons do Espírito para aparecer e negligenciar ser governado pelos frutos do mesmo Espírito. Apagar o Espírito é pensar que é santo só porque é usado. Não paga o Espírito quem busca ordem e decência no culto, mas quem, em nome de uma esquisitice sem precedentes reduz a obra do Espírito a um monte de estranhices infantis.
Apaga o Espírito quem repreende aquelas pessoas que não manifestam aquelas mesmas estranhices que elas. Apaga o Espírito quem rejeita a palavra autentica de Deus, revelada pelas Escrituras, em nome das revelações supostamente vindas de Deus.
Quero reiterar que creio na possibilidade de Deus se utilizar de pessoas para revelar ou profetizar algo para uma determinada pessoa, mas o dom da profecia e o da ciência não são os únicos dons do Espírito como alguns parecem entender.
Resumindo tudo em uma única questão, na maioria das vezes quem mais acusa os outros de apagarem o Espírito, geralmente é quem mais apaga!
2º Mito: Em Nm. 11.17-29 quando o texto diz que Deus tiraria do espírito que estava sobre Moisés estava-se falando de transferência de unção.
Esclarecimento: no texto citado a palavra Espírito no hebraico é (רוח) “ruwach”. Sem dúvida alguma o Senhor concedera àqueles setenta homens o seu Espírito, entretanto, não foi o espírito de Moisés que eles receberam e nem mesmo Deus teve que retirar de Moisés o Espírito Santo para que eles fossem habilitados com o que Deus lhes queria conceder. O fato é que aqueles setenta homens receberam características que os capacitou para exercerem liderança como e com Moisés. Eles receberam o Espírito que concede energia para a guerra e poder executivo e administrativo.
Receberam poder que capacita os homens com vários dons. Certamente não foi do espirito do próprio Moisés que eles receberam, mas o de Deus. E não foi uma transferência de unção, mas uma concessão de unção. Precisamos entender que nem todo texto da Bíblia pode ser interpretado literalmente.
3º Mito: Quando uma pessoa passa por uma experiência sobrenatural com o Espírito Santo seus sentidos são apagados durante a experiência.
Esclarecimento: dentro da perspectiva bíblica que tem servido de base para este livro não encontramos nenhum texto bíblico quer no Antigo ou no Novo Testamento que sustente essa tese. Como abrangemos nas páginas anteriores e mais precisamente no capítulo quatro, as experiências sobrenaturais além de trazerem sempre consigo algo relevante para a vida ou para o ministério, as faculdades mentais das testemunhas foi-lhes mantidas intactas. Percebamos que essas experiências vividas pelos profetas foram de uma singular relevância para a nação do profeta e para o povo de Deus ao longo de todos os séculos seguintes.
E mesmo tendo uma relevância tão crucial e um peso sublime, não houve qualquer rapto de sentidos ou retirada de capacidade intelectual. Seria cauteloso da parte dos cristãos apontarem as experiências contemporâneas infrutuosas como divinas? Não seriam porventura meramente emocionais? Em Atos 10 conta-nos Lucas que Pedro também foi rendido por uma visão, um êxtase. Mas Lucas diz-nos que ele falou e ouviu enquanto estava em êxtase. E, claro sua visão não foi sem causa, antes lhe fora um modo de Deus render seu preconceito com os gentios e também de enviá-lo a Cornélio para que lhe pregasse a salvação. É o mesmo que encontramos nas experiências de João, Daniel e Ezequiel.
4º Mito: Deus batiza os crentes com o seu Espírito com a finalidade de que todos falem em línguas.
Esclarecimento: em I Coríntios 12.13 Paulo diz que todos os verdadeiros membros do corpo foram batizados num só Espírito, o de Deus. Agora com relação aos dons ele nos clareia a compreensão nos versículos 29-30 ao dizer-nos o texto:
“Porventura, são todos apóstolos? Ou, todos profetas? São todos mestres? Ou, operadores de milagres? Têm todos dons de curar? Falam todos em outras línguas? Interpretam-nas todos?”
Fazendo a leitura completa deste texto, as respostas para essas perguntas ficam óbvias. A resposta para as sete questões apresentadas é a mesma: não. Não são todos apóstolos. Nãos são todos profetas. Nem são todos mestres. Nem todos podem ser operadores de milagres. Não são todos os crentes que tem dons para curar. Também não são todos os membros do corpo habilitados para falar em línguas. Tampouco para interpretar as línguas. Então a questão que acima é tratada como mito o é pelo fato de defender o contrário do que Paulo nos esclarece no texto refletido. Ainda em I Coríntios 14.26, outra vez, Paulo volta a falar sobre a diversidade dos dons e põe cada dom como sendo parte do ministério diferenciado dentro da Igreja. Com isso o apóstolo nos mostra que pelo fato de os membros do Corpo terem utilidades diferentes, nem todos podem ter o mesmo dom.
5º Mito: Todos os que são batizados podem livremente profetizar.
Esclarecimento: Há muitas igrejas que defendem isso, ainda que não apareça na sua declaração de fé, aparece frequentemente nos cultos. Parece haver muita confusão na mente de certos crentes com relação a isso, pois muitas pessoas pelo fato de falarem em línguas acham que também podem exercer o ministério profético. Esse comportamento parece ser peculiar de quem interpreta I Coríntios 14.31 do seu próprio modo. O texto diz: “Porque todos podereis profetizar, um após o outro, para todos aprenderem e serem consolados.” O texto nunca intentou dizer isso, se formos examiná-lo a luz do seu próprio contexto veremos que Paulo está na verdade instruindo a Igreja coríntia sobre a necessidade de ordem em seus cultos.
Ordem no sentido de organização. O conteúdo deste capítulo sugere indecência e bagunça na administração dos cultos em Corinto, razão maior de Paulo ser tão específico em suas colocações e abrangente em suas repreensões. Como explicou a resposta à questão anterior nem todos podem profetizar. Deus tem dons específicos para os crentes e nem todos devem profetizar caso contrário corre-se dois graves riscos: primeiro o de dizer o que Deus não mandou e sofrer por isso a punição da desobediência sendo condenado como falso profeta e segundo o de se tornar um reprodutor das frases de efeito divulgadas errônea e descompromissadamente.
6º Mito: O Espírito Santo tem um estilo de música em especial através do qual sempre se revela: “hinos de fogo”.
Esclarecimento: em toda a Bíblia jamais será encontrado um texto que defenda este ponto de vista. Não há um estilo de música em especial através do qual o Espírito se sente livre para manifestar sua unção nem tampouco precisa Ele de música para externa sua presença. Quando tipicamente se vê pessoas mediante o som da música manifestar algum dom ou externalizar danças, supostamente espirituais, pode-se ter um caso de emocionalismo vazio. Ao contrário do que geralmente se diz a unção não é contagiante, é obra da manifestação de Deus e ele dá a quem quer e no momento que deseja.
7º Mito: A alegria do Espírito é trazida para o crente sempre por meio de canções.
Esclarecimento: É sábio dizer que a música de qualquer espécie funciona como elemento motivador de emoções. Todos sabem que cantores seculares arrastam milhões pelas madrugadas e a massa arrastada se deixa levar pelo fato de que ainda que passageira sentem emoções e adrenalinas incomuns no contexto geral de suas vidas. Há até quem creia que não dá para viver sem música. Todos nós, sem nenhuma exceção, somos tocados, sensibilizados e motivados pela música, mas como seres humanos emocionais.
Jamais poderemos excluir a possiblidade de o Espírito fluir por meio de canções. Já temos visto pessoas serem curadas, libertas e abençoadas enquanto louvores estão sendo ministrados, entretanto cabem-nos algumas perguntas: Porque certos avivamentos são facilmente iniciados e mantidos pelas canções cantadas? Porque quando acaba a música, acaba o “avivamento”?
Devemos esclarecer que quando a alegria, a unção ou qualquer manifestação supostamente espiritual é condicionada a uma canção ou a um estilo de música tal manifestação ainda que sejam semelhantes as do Espírito de Deus são meramente emotivas ou carnais. a Bíblia não faz nenhuma referência a existência de música no cenáculo no dia de pentecostes. Lucas se referiu à oração e a união dos discípulos.
“Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria mãe de Jesus, e com seus irmãos.”
(Atos 1:14)
“E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados” (Atos 2:1-2).
Nenhuma referencia é feita a canções no período anterior a vinda do Espírito. Embora, como já fizemos referência, a música sacra seja imensamente importante e até necessária no serviço de culto prestado pelo povo de Deus, a obra de enchimento do Espírito não depende desse tipo de coisa. O Espírito é derramado sobre os cristãos, principalmente por que essa é uma promessa universal de Deus. É plano de Deus encher seus filhos com seu Espírito e não é a presença ou ausência de música em um culto que vai possibilitar ou inviabilizar tal promessa.
8º Mito: Só pode haver batismo, se houver uma constante repetição de palavras como: Glória a Deus e Aleluia…
Esclarecimento: Obviamente Deus não tem fórmulas através da quais as pessoas O possam manipular. O batismo do Espírito é, em certo sentido, determinado pelo homem quando este dá ao Espírito todo controle sobre suas ações e pensamentos. Então com o novo nascimento e a conversão genuína vem o batismo. Mas é tolice do homem achar que sua vida será dominada por Deus apenas pelo fato de repetir constantemente palavras e expressões que podem nem mesmo ter vindo de um coração quebrantado e disponível no altar do Pai. Esse argumento mítico além de absurdo é totalmente desprovido de evidências bíblicas ou teológicas.
Há quem use Efésios 5. 18 e 19 onde Paulo diz: “enchei-vos do Espírito falando…” só que o próprio contexto de Efésios 5 sugere que Paulo está tratando de mudanças na vida diária, pois assim como ele diz “falando entre vós” também diz “sujeitando uns aos outros” não são elementos que levam ao enchimento do Espírito, mas sinais autênticos de que o Espírito habita em tal pessoa.
9º Mito: O batismo com o Espírito Santo é evidenciado pelo falar em línguas ou quando o crente manifesta qualquer um dos nove dons de I Coríntios 12.
Esclarecimento: Há um ensino entre algumas igrejas que prega que o batismo com o Espírito Santo é comprovado pelo dom de Línguas, entretanto, como já falamos outrora, biblicamente falando nem todos falam em outras línguas I Co. 12.29-30. Então devemos acreditar que a evidência do batismo com o Espírito Santo é o exercício de qualquer um dos dons descritos em I Coríntios 12? Não.
Biblicamente falando o batismo do Espírito é muito mais do que exercer ou manifestar dons. O exercício dos dons se limita às circunstâncias, aos trabalhos na igreja, aos cultos, aos evangelismos, etc. enquanto que o batismo atinge sem exceção, todas as áreas da vida de um indivíduo e traz um peso de influência o tempo todo, como já temos visto nos capítulos antecessores deste. É óbvio que quem recebeu o batismo se torna útil no reino de Deus, isto fica claro no capítulo 14 de I Coríntios.
Quando o apóstolo fala de membros, ele fala de ação, de utilidade e de unidade, coisas possíveis pela ação operante de Deus e do Seu Espírito em nós. Quem foi genuinamente batizado pelo Espírito expressa sim algum tipo de dom, porque ninguém que foi verdadeiramente batizado permanece infrutuoso no reino. Devemos completar que há dois tipos benéficos de fruto que o crente que foi batizado precisa produzir: frutos dignos de arrependimento, isto é, aquelas mudanças que marcam seu novo testemunho e os frutos que glorificam a Deus pelo fato de render resultados que fazem Seu reino avançar.
Ou seja, frutos de obras no reino: pregar, assistir os necessitados, doar, em fim tudo o que coopera para a manutenção da igreja e o crescimento do reino de Deus. Mas esse dom que marca a pessoa batizada não precisa ser obrigatoriamente algum dos 9 de I Co. 12 ou de Ef. 4. Pode ser os de Rm. 12 ou algum outro espalhado pelo Novo Testamento. O batismo nos traz mudança de vida e nos equipa para sermos úteis, pois quem é vivo (e o Espírito vivifica) cresce e produz. E nas palavras de John Stott “Toda a Igreja é uma comunidade carismática. Ela é o Corpo de Cristo, cujos membros funcionam por causa dos seus dons (charismata)”.
Autor
José Rosivaldo
Missionário formado pela JOCUM – Jovens Com Uma Missão, uma organização cristã missionaria que atua em todas as nações do mundo. Pastoreou a igreja Batista em Lagoa do Peri-peri - AL. Escreveu diversos livros. Educador cristão há vários anos. Casado com Fernanda Laurindo